As Grandes Expedições Científicas e a Cartografia da Vida Vegetal

Ilustração histórica do Porto do Rio de Janeiro em 1818 com navios mercantes ancorados na Baía de Guanabara, trabalhadores no cais carregando mercadorias e o Morro do Pão de Açúcar ao fundo.

Das viagens exploratórias aos primeiros grandes acervos: como a travessia dos territórios transformou a diversidade vegetal em conhecimento documentado


Antes que uma planta pudesse ocupar a folha do herbário, alguém precisou transpor o território onde ela nasceu.


O processo de transformação de uma planta viva em uma evidência taxonômica duradoura depende de uma etapa metodológica que antecede o trabalho curatorial de laboratório. Essa relação com o ambiente de pesquisa foi o tema central do nosso Capítulo anterior, Herbários: As Tecnologias de Memória da Biodiversidade.

A exsicata resguarda o espécime, a etiqueta consolida seus metadados espaço-temporais dentro de um acervo comparativo organizado e o herbário reúne essas evidências em coleções que continuam disponíveis por muitos anos depois da coleta.

No entanto, a existência dessas coleções pressupõe uma grande busca prévia no próprio território de origem dos vegetais. A pesquisa de campo expandiu a taxonomia para além dos armários institucionais, uma mudança essencial para testar os sistemas de classificação contra a real variabilidade da natureza, o que seria impossível limitando-se a amostras locais.

Antes dessa expansão, o estudo da natureza foi altamente restrito por um longo período. O universo disponível aos naturalistas limitava-se, essencialmente, a plantas cultivadas em jardins locais, a espécimes recolhidos nas imediações dos centros de estudo e a relatos de viajantes.

Nos séculos XVIII e XIX, a investigação botânica ocidental expandiu seus limites geográficos ao acompanhar as redes internacionais de comércio, levantamentos cartográficos, estudos astronômicos e missões militares. As viagens incorporaram cientistas de campo dedicados a inventariar floras inteiras, alcançando ambientes e espécies desconhecidos pelos centros de pesquisa europeus.

Tal simbiose logística era fundamental, pois os botânicos dependiam da infraestrutura e da proteção estatal para acessar territórios hostis, transformando a marcha geopolítica e comercial em vetor de catalogação científica de ecossistemas inteiros.

Um dos maiores exemplos dessa transição metodológica ocorreu na primeira viagem do capitão James Cook ao redor do globo (1768–1771). A bordo do HMS Endeavour, a própria estrutura da embarcação, que anteriormente era um cargueiro de carvão, foi adaptada para funcionar como um laboratório flutuante de triagem, prensagem e secagem de plantas.

Graças a essa infraestrutura, segundo dados do Natural History Museum de Londres, os naturalistas Joseph Banks e Daniel Solander conseguiram retornar à Europa com um volume inédito de coletas, cerca de 30 mil espécimes, introduzindo aproximadamente 1.300 novas espécies na literatura botânica ocidental.

No século XIX, esse modelo de coexistência entre Estado e ciência consolidou-se institucionalmente. Registros do Smithsonian Institution, fundado em 1846 nos Estados Unidos, documentam como os levantamentos territoriais e as rotas comerciais da expansão rumo ao oeste americano tornaram-se o cenário ativo para uma catalogação botânica de proporções continentais.

O impacto dessas expedições ultrapassou o mero incremento quantitativo das coleções. O acúmulo de dados em diferentes latitudes forçou a ciência a integrar o espaço geográfico, as altitudes e os fatores ambientais como variáveis críticas na interpretação da vida vegetal.

Ao buscar explicar por que certas espécies ocorriam apenas em determinadas regiões e quais fatores limitavam sua distribuição, a botânica deixou de ser uma disciplina puramente descritiva para se fundar como uma ciência ecológica e biogeográfica. Assim, a travessia dos territórios não era mais somente a busca por novidades exóticas e se tornou o alicerce para decifrar as leis que governam a distribuição da vida na Terra.

Como a Ilustração Botânica Registrava o Campo em Tempo Real

O envio de um espécime vegetal desidratado e prensado para um herbário distante só representava uma fração do trabalho do botânico. No ambiente de campo, a planta viva exibia características transitórias essenciais para a sua identificação taxonômica, como a disposição tridimensional das folhas, as cores originais de flores e frutos e sua arquitetura geral.

Como essas propriedades ópticas e fisiológicas se perdiam ou sofriam deformações severas durante a compressão mecânica na prensa botânica, a ilustração científica realizada in loco tornou-se um instrumento complementar indispensável para registrar aquilo que a herborização não conseguia preservar.

A Ilustração de Campo e o Registro Fenológico

O desenho produzido durante uma expedição exploratória operava como um registro dinâmico e documental, servindo de base para as ilustrações botânicas estruturais refinadas publicadas anos mais tarde em tratados europeus. Registros de instituições como o Natural History Museum de Londres e o Royal Botanic Gardens, Kew, demonstram que os esboços rápidos funcionavam como extensões do próprio processo de observação botânica.

Nas viagens do capitão James Cook a bordo do HMS Resolution, por exemplo, o jovem ilustrador alemão Georg Forster trabalhou em estreita colaboração com seu pai, o naturalista Johann Reinhold Forster, para fixar em lápis e aquarela os diagramas anatômicos da flora do Pacífico Sul antes que o material sofresse a degradação do transporte e do tempo.

Essa dinâmica de observar, interpretar e registrar a natureza por meio do desenho é um exemplo histórico muito relevante para a botânica e que abordamos no texto Quando a Ciência Dependia dos Artistas: Como a Ilustração Botânica Ajudou a Construir o Conhecimento das Plantas.

Desse modo, os cadernos do ilustrador podiam preservar o contexto ecológico do organismo. Eles impediam a perda de informações sobre os ciclos fenológicos, capturando o viço de tecidos suculentos e a translucidez das pétalas que a secagem transformaria em superfícies opacas e enrugadas.

Além disso, os registros anotavam a natureza do solo, a associação com polinizadores e o hábito de desenvolvimento da planta, detalhando se ela se comportava como epífita, trepadeira ou arbórea.

A Tríade Documental: A Ilustração como Elo Integrador da Pesquisa

Talvez a maior contribuição da ilustração de campo para a história natural não estivesse no seu valor isolado, mas na sua capacidade de integrar um sistema de verificação cruzada. Afinal, isoladamente, nenhum registro era suficiente para respaldar a descrição de uma nova espécie.

Se o material prensado fornecia a evidência física sacrificando o aspecto saudável da planta, a etiqueta oferecia as coordenadas geográficas sem registrar suas formas tridimensionais. A ilustração, por sua vez, capturava o hábito e a volumetria do vegetal vivo, mas carecia de substância tátil.

Ao operar como a ponte visual entre o espécime seco e os cadernos de anotações, o desenho feito no local integrava essas observações fragmentadas em um conjunto documental indissociável. Era esse sistema que permitia aos botânicos na Europa analisar e reconstituir as características do organismo com precisão, mesmo sem terem visitado o local da coleta.

A Ciência da Incerteza: A Taxonomia Assíncrona e o Tempo da Descoberta

Existe uma dimensão das missões de pesquisas botânicas que muitas narrativas costumam negligenciar: as dúvidas que acompanham cada descoberta. No momento do achado em campo, o pesquisador raramente possuía a confirmação imediata sobre a identidade exata do organismo diante de si.

Uma planta aparentemente familiar poderia revelar variações morfológicas cruciais só depois de análises comparativas minuciosas. Um traço anatômico interpretado de forma preliminar na mata podia ganhar novos significados quando confrontado com espécimes provenientes de outras regiões geográficas. As expedições formulavam hipóteses e multiplicavam os questionamentos taxonômicos.

Na prática, a construção do conhecimento botânico revelou-se um processo distribuído no tempo e no espaço. A coleta física e a ilustração em tempo real registravam e resguardavam as evidências efêmeras. Mais tarde, após cruzar os oceanos, ser incorporada a uma coleção de referência e confrontada com a literatura, a exsicata podia finalmente ser associada a uma identificação taxonômica segura.

Poucas vezes a descoberta científica coincidia com o momento da extração no campo; era ali que ela apenas começava.

Pintura digital de Johann Reinhold Forster e Georg Forster catalogando plantas em praia tropical do Pacífico Sul durante a expedição do navio HMS Resolution em 1773.

Quando a Distribuição das Plantas Passou a Explicar o Território

O acúmulo de observações práticas em diferentes cantos do mundo expandiu significativamente o número de espécies conhecidas e, de quebra, mudou a própria natureza das perguntas que os botânicos faziam.

Em vez de se limitarem a identificar o organismo, respondendo exclusivamente a “O que é esta planta?”, os naturalistas passaram a investigar a sua ecologia espacial: “Por que ela nasce justamente aqui?”.

Humboldt, Bonpland e a Emergência da Geografia Vegetal

Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland representam um grande marco nessa mudança de escala. Durante sua expedição pela América espanhola, entre 1799 e 1804, ambos reuniram observações minuciosas sobre vegetação, altitude, clima e condições físicas do ambiente.

Em 1807, publicaram Ideen zu einer Geographie der Pflanzen (Ideias para uma Geografia das Plantas), obra que trazia a célebre ilustração científica Tableau physique des régions équinoxiales (Painel Físico das Regiões Equinociais). Esse registro histórico, preservado hoje como um dos tesouros fundadores da geografia vegetal (biogeografia botânica), revolucionou a percepção científica da Terra.

Mais do que atribuir o nascimento de uma disciplina a esses dois homens, essa transformação marcou uma transição conceitual. A botânica deixava de focar no espécime isolado para se tornar uma ciência dedicada às dinâmicas vivas entre as comunidades vegetais e seus ambientes — um reflexo direto do processo que tratamos em A Evolução do Olhar: Como a Observação Transformou as Plantas em Conhecimento. A paisagem, finalmente, passou a ser lida como um todo integrado.

Essa abordagem holística era, inclusive, uma necessidade prática de campo. Diante da impossibilidade logística de coletar e prensar cada árvore de florestas monumentais, os naturalistas precisaram aprender a decifrar os padrões gerais da comunidade botânica para sintetizar a imensidão do território em dados gerenciáveis.

Gradientes Altitudinais, Clima e Análise Comparativa

Sob essa nova ótica, a altitude e a latitude deixaram de ser simples variáveis topográficas para se tornarem fatores explicativos do zoneamento da vegetação – a distribuição das comunidades de plantas em faixas distintas ao longo de gradientes ambientais. Essa virada exigia uma ferramenta que as grandes expedições forneciam em abundância: a análise comparativa entre territórios remotos.

A partir de então, plantas catalogadas em uma encosta andina e espécimes registrados em montanhas europeias ou africanas passaram a integrar o mesmo sistema de investigação e, assim, o campo visual e analítico da ciência se expandiu de maneira acelerada.

A comparação direta de inventários entre diferentes regiões do globo permitia distinguir as variáveis climáticas das geográficas, evidenciando que condições físicas análogas moldavam fisionomias vegetais e respostas adaptativas semelhantes, independentemente do hemisfério.

Do Espécime ao Território: O Mapa Como Ferramenta de Pensamento

Quando registros provenientes de regiões distintas passaram a ser confrontados, a espécie deixou de ser um simples objeto de descrição confinado a uma gaveta e assumiu o papel de marcador dinâmico no espaço, alterando profundamente a forma como a ciência passou a ler a natureza.

O herbário permitia preservar a evidência material; a expedição permitia descobrir em quais cantos do planeta ela realmente existia. O mapa, por sua vez, começava a reunir todas essas ocorrências, transformando locais distantes em um problema de investigação comum.

Nesse contexto, a cartografia deixou de ser apenas uma ferramenta para desenhar territórios e fronteiras. Ela se tornou também uma maneira poderosa de pensar as relações entre os seres vivos e o espaço que habitavam.

A Cartografia Espacial Como Vetor de Hipóteses

Um único ponto marcado no mapa podia indicar um achado. Vários pontos espalhados começavam a desenhar uma distribuição real. Por outro lado, uma área em branco podia indicar tanto uma região ainda não explorada quanto a ausência de fato daquela planta. Qualquer mudança súbita no padrão de ocorrências levantava novas perguntas sobre clima, solo ou dispersão de espécies.

A mesma lógica continua presente no mundo digital. O GBIF (Global Biodiversity Information Facility), por exemplo, reúne atualmente bilhões de registros de coleções científicas e observações de campo, permitindo relacionar a ocorrência de espécies em diferentes escalas geográficas e temporais.

O suporte mudou do papel amarelado para as telas de alta resolução, mas a pergunta fundamental que movia Humboldt e Bonpland permanece exatamente a mesma:

“Onde está a planta?”

Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland realizando observações científicas e coletando plantas na Cordilheira dos Andes durante expedição pelas Américas.

A Complexa Logística por Trás das Viagens das Plantas

Encontrar uma nova espécie no meio da mata era apenas a primeira etapa do trabalho. Logo em seguida, surgia um desafio prático e decisivo: como levar aquela evidência, viva ou seca, de volta aos centros de pesquisa na Europa?

Enquanto uma exsicata precisava cruzar o oceano em condições que preservassem suas estruturas para o estudo anatômico, as sementes dependiam da conservação do seu poder de germinação. O cenário era ainda mais drástico para as plantas vivas, que enfrentavam meses de travessia marítima em conveses castigados pela maresia, ventos fortes e escassez crônica de água doce.

Longe do romantismo das descobertas, a logística era o verdadeiro motor da produção do conhecimento botânico.

Porões e Prensas: A Estabilidade do Espécime Seco

O espécime vegetal prensado e desidratado apresentava uma vantagem óbvia: uma vez preparado, ocupava pouco espaço nos porões dos navios e tolerava longas viagens de forma estável.

Essa calmaria logística, contudo, cobrava o seu preço: as cores originais desbotavam, o volume tridimensional colapsava e tecidos delicados tornavam-se irreconhecíveis.

Nesse ponto, a ilustração de campo ganhava uma função estritamente técnica. A bordo das embarcações, os artistas usavam o tempo livre da navegação para cruzar os contornos exatos colhidos em terra com códigos de cores anotados nas bordas dos esboços. Era essa conferência que permitia a pintura das aquarelas finais antes que o material coletado mofasse ou apodrecesse nos porões úmidos.

Mais do que transportar vegetais, as expedições moviam um sistema integrado de evidências fáticas, cujo objetivo era reconstituir a planta viva na mente dos cientistas europeus — um esforço de reconstituição que dependia diretamente de compreender A Precisão da Morfologia Vegetal que Não Enxergamos em cada detalhe anatômico.

A Revolução de Nathaniel Ward e as Plantas Vivas em Alto-Mar

O transporte de espécimes vivos, por sua vez, desafiou a ciência por séculos. Até o início dos anos 1800, o salitre, a falta de luz e o racionamento de água potável dizimavam quase a totalidade das plantas vivas trazidas nos navios.

Essa barreira histórica só ruiu a partir de 1829, quando o médico britânico Nathaniel Bagshaw Ward desenvolveu a Wardian case (caixa Wardiana). A solução consistia em um terrário de vidro selado que criava um microclima autossustentável: a umidade evaporada pelas folhas condensava nas paredes de vidro e retornava ao solo.

Registros do Royal Botanic Gardens, Kew, documentam o sucesso imediato da inovação. Em 1833, duas dessas caixas viajaram entre Londres e Sydney repletas de samambaias e musgos, que completaram a jornada perfeitamente viáveis.

Ao criar um escudo contra o ambiente marítimo, a caixa Wardiana alterou profundamente a geografia botânica do planeta, viabilizando o intercâmbio de espécies sensíveis entre continentes distantes.

Biopirataria e o Transporte de Plantas Como Recurso Estratégico

Mover plantas através dos oceanos, no entanto, não atendia apenas à curiosidade acadêmica. A capacidade de transportar espécimes vivos integrou o núcleo do desenvolvimento econômico e da disputa geopolítica dos impérios coloniais.

O acervo histórico de Kew exemplifica como esses sistemas de transporte foram cruciais para a circulação internacional de culturas de altíssimo valor comercial. Foi por meio dessa logística que mudas de cinchona (árvore de onde se extrai o quinino, única defesa contra a malária na época) e sementes de seringueira (Hevea brasiliensis, base da produção industrial de borracha) cruzaram fronteiras coloniais para remodelar a economia de nações inteiras.

A viagem científica operava em profunda ligação com as redes de comércio, a agricultura de plantation e o poder estatal. Longe de ser um esforço isolado de naturalistas solitários, a travessia dos territórios e a cartografia da vida vegetal foram, acima de tudo, ferramentas fundamentais na construção do mundo moderno.

Marinheiro no convés de navio mercante amarrando caixa de Ward de madeira e vidro contendo muda de Hevea brasiliensis seringueira com placa de Kew Gardens e Ceylon, atual Sri Lanka, de 1888.

As Redes Invisíveis por Trás da Catalogação Científica

Embora as grandes expedições botânicas ocorressem em uma época de intensa circulação de mercadorias e de projetos coloniais, a produção desse saber envolvia dinâmicas muito mais ricas do que a mera exploração comercial.

Conhecer a distribuição de alimentos, especiarias, fibras e medicamentos tinha consequências políticas evidentes, mas o fazer científico, a administração territorial e o poder coexistiam de forma orgânica e multifacetada dentro dessas estruturas.

Para além da herança institucional de grandes centros como o Kew, há outra camada fundamental que as narrativas tradicionais costumam omitir: quem, de fato, produzia esse conhecimento?

A figura do grande naturalista solitário que parte para desbravar uma flora totalmente desconhecida é um mito muito mais simples do que a realidade histórica. As teias de coleta eram vastas e dependiam crucialmente de funcionários coloniais, missionários, agricultores, militares, jardineiros e especialistas locais.

Estudos historiográficos contemporâneos sobre o período imperial demonstram que sem esses participantes anônimos, a formação das grandes coleções de referência teria sido logisticamente inviável. Essa constatação altera inclusive o sentido ético e científico da palavra “descoberta”.

Quando uma espécie amplamente utilizada e mapeada por comunidades indígenas ou populações tradicionais era registrada por um botânico europeu, ela não passava a existir naquele instante. O que ocorria, na verdade, era a inserção daquele organismo — e dos saberes tradicionais associados a ele — em um novo circuito de documentação, classificação ocidental e circulação global.

Reconhecer a pluralidade desses atores e saberes torna a história das expedições botânicas muito mais complexa, mas também rigorosamente mais precisa.

Acampamento de coleta botânica do século XIX na Colômbia com cientistas europeus, guias indígenas e trabalhadores locais catalogando plantas tropicais em cestos na praia.

Do Mapa de Papel aos Mapas da Biodiversidade

Ainda que as grandes expedições científicas botânicas da era de ouro, de caráter colonial, pertençam ao passado, a infraestrutura documental deixada por elas continua produzindo efeitos profundos na ciência contemporânea. Cada ponto de coleta, cada espécime preservado e cada mapa histórico acrescentaram camadas cruciais à memória espacial da flora.

Hoje, o rico patrimônio que antes ocupava cadernos de campo, cartas manuscritas e mapas impressos foi integrado a coordenadas de satélite, bancos de dados globais e coleções de herbários históricos totalmente digitalizados.

Essa transição para modernos sistemas de dados de biodiversidade significa que as perguntas formuladas pelos naturalistas do passado ganharam ferramentas analíticas sem precedentes, sem que o valor da história natural fosse substituído.

Atualmente, um registro gerado por uma coleta botânica realizada há mais de dois séculos pode ser associado a um ponto geográfico exato nas redes atuais de informação, servindo de base para modelos preditivos que analisam o impacto das mudanças climáticas sobre a vida vegetal.

O antigo mapa de papel, portanto, se transformou em uma engrenagem ativa de uma cadeia documental muito mais ampla. O mapeamento contemporâneo da biodiversidade e a biogeografia moderna continuam dependendo diretamente daquela travessia inicial dos territórios.

Ao olhar para as telas de alta resolução que exibem a distribuição atual das plantas na Terra, a ciência moderna enxerga, na verdade, a consolidação de séculos de ilustração de campo, catalogação e cartografia vegetal.

Mesa de curador de herbário do século dezenove com mapa antigo da América do Sul e exsicata botânica recebendo sobreposição digital de linhas de dados e coordenadas geográficas do GBIF.

A Expedição que Nunca Termina

Uma grande expedição científica botânica podia durar meses ou anos em ambiente de campo, mas seu verdadeiro percurso histórico revelou-se muito mais longevo. Enquanto a viagem física terminava no momento em que o naturalista retornava ao seu país de origem, o trabalho científico permanecia perenemente ativo.

Os espécimes coletados continuavam disponíveis para comparação nos herbários, os desenhos de campo eram revisitados por novas lentes teóricas e as anotações feitas à beira das matas ganhavam novos significados quando confrontadas com descobertas posteriores.

É por essa razão que o legado dessas grandes jornadas não se mede apenas pelas distâncias percorridas ou pela quantidade bruta de espécies recolhidas, mas sim pela transformação do território em conhecimento universal e comparável.

A partir desse movimento, a ciência passou a enxergar a vegetação não como um conjunto de organismos isolados e espalhados ao acaso pelo mundo, mas como uma distribuição viva que podia ser mapeada, documentada e correlacionada a fatores como espaço, clima, altitude e tempo.

Nessa engrenagem integrada da história natural, cada etapa cumpria um papel indissociável: o campo fornecia a experiência bruta; a ilustração de campo conservava o vigor do que o olhar encontrava; a coleta preservava as evidências físicas; o transporte conectava o território hostil às coleções coloniais; o mapa organizava visualmente as ocorrências; e os herbários históricos tornavam possível o eterno retorno a essas amostras muito depois da morte de seus coletores.

Hoje, os instrumentos digitais e as redes globais de biodiversidade expandem essa teia de dados em escalas monumentais, mas a lógica fundamental da cartografia vegetal continua perfeitamente reconhecível. A pergunta central da biogeografia ainda ecoa diretamente a partir do território: “Onde está a vida?”.

A diferença crucial é que agora a ciência possui a capacidade de cruzar respostas provenientes de épocas, latitudes e expedições totalmente diferentes. A cartografia da vida vegetal, portanto, nunca esteve e jamais estará totalmente pronta; cada viagem acrescentou novos pontos no mapa, cada acervo abriu novos caminhos de análise e cada geração de pesquisadores reinterpretou os registros deixados pela anterior. A travessia ainda não terminou.

Depois que a ciência aprendeu a encontrar uma planta em territórios distantes, registrá-la em tempo real e transportá-la viva por oceanos violentos, um novo problema igualmente fascinante se impôs: como cultivá-la e mantê-la saudável ao chegar a um ambiente completamente diferente daquele em que ela evoluiu?

Essa intrigante pergunta deslocaria o eixo da investigação botânica para dentro de estufas imperiais, jardins botânicos urbanos e inovadores espaços de aclimatação; ecossistemas artificiais criados para testar se a vida vegetal poderia prosperar longe de sua pátria de origem.

Gostou de desbravar as rotas que mapearam a nossa flora? Em breve, o próximo Capítulo desta história estará disponível aqui no VivaNow360. Acompanhe o blog para descobrir em Estufas e Jardins de Aclimatação: A Engenharia dos Microclimas e a Domesticação da Flora Global como as plantas exóticas foram transformadas em recursos globais.

Deixe também o seu comentário abaixo: qual dessas etapas das expedições botânicas você achou mais impressionante? Vamos continuar essa conversa!

Navios de carga ingleses ancorados nas docas do Porto de Liverpool por volta de 1850 com trabalhadores movimentando caixas de madeira e barris no cais ao amanhecer.

A pesquisa para este mapeamento da flora global e para a reconstituição histórica das rotas que transformaram a diversidade vegetal em patrimônio botânico documentado baseia-se nas fontes consultadas a seguir.



Referências Bibliográficas

CORNISH, Caroline. Kew and colonialism: A history of entanglement. Royal Botanic Gardens, Kew, Richmond, 10 mar. 2020. Disponível em: https://www.kew.org/read-and-watch/kew-empire-indigo-factory-model. Acesso em: 19 ago. 2026.

DAVID, Ink. Worth a thousand words: The hidden histories of botanical illustrations. Royal Botanic Gardens, Kew, Richmond, 23 nov. 2023. Disponível em: https://www.kew.org/read-and-watch/botanical-illustrations-history. Acesso em: 19 ago. 2026.

GLOBAL BIODIVERSITY INFORMATION FACILITY. Scientific collections. GBIF, Copenhagen, [s.d.]. Disponível em: https://www.gbif.org/collections. Acesso em: 19 ago. 2026.

HUMBOLDT, Alexander von; BONPLAND, Aimé. Ideen zu einer Geographie der Pflanzen nebst einem Naturgemälde der Tropenländer [...]. Tübingen: F. G. Cotta; Paris: F. Schoell, 1807. Disponível em: https://www.sammlungen.hu-berlin.de/objekte/-/16678/. Acesso em: 19 ago. 2026.

LEWIS, Philippa. The Wardian case: A history of plant transportation. Royal Botanic Gardens, Kew, Richmond, 23 set. 2016. Disponível em: https://www.kew.org/read-and-watch/the-wardian-case-a-history-of-plant-transportation. Acesso em: 19 ago. 2026.

LOTZOF, Kerry. Joseph Banks: scientist, explorer and botanist. Natural History Museum, London, [s.d.]. Disponível em: https://www.nhm.ac.uk/discover/joseph-banks-scientist-explorer-botanist.html. Acesso em: 19 ago. 2026.

NATURAL HISTORY MUSEUM. The Cook Voyages: HMS Endeavour, HMS Resolution and HMS Discovery. Natural History Museum, London, [s.d.]. Disponível em: https://www.nhm.ac.uk/our-science/services/library/collections/cook-voyages.html. Acesso em: 19 ago. 2026.

OSTERLOFF, Emily. Daniel Solander: a Linnaean disciple on HMS Endeavour. Natural History Museum, London, [s.d.]. Disponível em: https://www.nhm.ac.uk/discover/daniel-solander-a-linnaean-disciple-on-hms-endeavour.html. Acesso em: 19 ago. 2026.

ROYAL BOTANIC GARDENS, KEW. Imperial botany and the networks of science. Kew Gardens, Richmond, [s.d.]. Disponível em: https://www.kew.org/read-and-watch/imperial-botany-and-networks-of-science. Acesso em: 19 ago. 2026.

SMITHSONIAN NATIONAL MUSEUM OF NATURAL HISTORY. First Voyage of Captain James Cook. Smithsonian Institution, Washington, D.C., [s.d.]. Disponível em: https://naturalhistory.si.edu/research/botany/about/historical-expeditions/first-voyage-captain-james-cook. Acesso em: 19 ago. 2026.

SMITHSONIAN NATIONAL MUSEUM OF NATURAL HISTORY. Historical Expeditions. Smithsonian Institution, Washington, D.C., [s.d.]. Disponível em: https://naturalhistory.si.edu/research/botany/about/historical-expeditions. Acesso em: 19 ago. 2026.

Comentários

Os Favoritos dos Leitores